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segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Exercício de Fotografia III

Exercício com Restrição de Mobilidade: Escolher uma posição (de pé, sentada...) a ser mantida e fotografar o entorno.

A princípio tentei fotografar subindo numa escada, mas a máquina apresentou algum problema. Não estava  com a nitidez habitual em nenhuma das modalidades automáticas, nem com  ajuste manual; como se tivesse um véu tênue e uniforme  entre a lente e o mundo. Não havia me deparado com este problema até pouco tempo atrás.

Após edição 3 a 5 fotos deveriam ser apresentadas. Assim registro, do mesmo tema, 2 fotos com a câmera do celular, e 2 com a câmera Canon.
 


 



E para estudo  pessoal, acrescentarei algumas das primeiras  que ficaram levemente enevoadas com a Canon e outras de 21/11/2020 feitas com o celular.








sábado, 15 de agosto de 2020

Fotografia - Sombras.



Marcelo Almeida

Conforto da Pandemia é acessar aulas que não presenciamos no ato, em momentos mais convenientes, como agora,  quando a casa dorme.
Fotografia... imagem pelo olho da câmera, extensão antropomórfica e simbiótica, um amor antigo.
Neste viés de tentar o aprendizado  assisti a fala do professor Marcelo Almeida, "Periscópios Possíveis", exposta para o curso noturno.
Ali  apresentou o embrião de um projeto, desenvolvido na Pandemia Covid19: "De Fora Para Dentro."
Visão das pessoas em seus nichos e refúgios enquanto o inimigo invisível espreita lá fora.


Guilherme Pupo

No desenrolar da conversa veio uma referência ao trabalho de Guilherme Pupo, fotógrafo que eu conhecia pelas lindas imagens aéreas de Curitiba. Enfoque muito interessante, do céu ao chão.
E surpreendi-me com a indicação do projeto mais recente, fotos de sombras.


As sombras que me hipnotizam há meses, desde que percebi uma luz lindíssima, por elas permeadas,  num comércio da cidade.
Seria o tal do consciente coletivo? Quando alguém visualiza ou concretiza uma ideia e ela se propaga como onda em outras mentes?


Passei a enxergar sombras com mais cuidado, apesar de ter esta perspectivas de outros tempos.


Elas nos rodeiam quase imperceptíveis no cotidiano. Reveladoras ou perfeita camuflagem.


Sombras. Concretas, fantasmagóricas, distorcidos espelhos do que somos e fazemos.
Do mundo.


As sombras etéreas que assumiram nossos espaços vazios durante a pandemia.



Registro aqui algumas sombras para que não se desvaneçam na luz.






terça-feira, 11 de agosto de 2020

Fotografia - Caminhando com a Pandemia

A segunda sessão fotográfica  da disciplina - Fotografia - é um registro  feito durante a Pandemia Covid19.
A princípio minhas escolhas refletiram uma certa ausência de cor. Neutralidade que pode ser muito elegante quando traduz um universo fashionista, mas no atual contexto  reflete passividade da alma.
Então procurei  cor  e a caminhada se traduziu em etapas.

1. CONTURBAÇÂO











2. CONFINAMENTO














3. CONCILIAÇÂO











sexta-feira, 8 de maio de 2020

Sobre Fotografia - Susan Sontag


Autora Susan Sontag

Escritora e ativista discorreu sobre vários assuntos como literatura, cinema, pornografia, conflitos políticos envolvendo países do Leste Europeu, e Oriente;  que se tornaram plataforma para sua visão de mundo.
A respeito do livro "Sobre fotografia", lançado em 1977, declarou que era uma forma de relatar suas ideias sobre modernidade e maneiras contemporâneas de pensar e sentir.
O ensaio tornou-se  um clássico sobre fotografia  e revela o engajamento da autora com outras causas, que extrapolam a lente fotográfica.
Na teoria de Sontag compreender os motivos que nos levam a fotografar e como desenvolvemos a arte revela posicionamentos e concepções do mundo.
O enfoque principal nos seus escrito é  a estética e a moral.
Em relação a estética Sontag repudiava a ideia de beleza convencional nivelando o belo e o feio, o importante e o banal procurando a estética do inusitado em situações e objetos.
Argumentava que as obras de artes, conservadoras e pretensiosas deram espaço a novo conceito de beleza. Que "interessante" passou a ser o novo belo, e que a fotografia foi a primeira arte a provocar este reconhecimento.
Fotografia seria a arte capaz de reconhecer o belo no trivial.
Sob o olhar do fotógrafo esta beleza estaria associada ao "sentido da pura amplitude e plenitude da realidade inanimada mas também pulsante que rodeia todos nós".
Assim como afirmava que "a câmera empurra para adiante as fronteiras do real" demonstrava um certo fascínio pela fotografia.
Por outro lado teorizava que fotografia é uma maneira de colecionar fragmentos em uma espécie de acumulação sem fim.
Em muitos escritos Susan Sontag procurou redimir a pornografia, considerando que 'Trangredir não é Uma Ameaça", título de artigo, e que imaginação pornográfica pode ser traduzida como arte, tema válido para a literatura e fotografia. Tentava dissociar a pornografia  do conceito de fenômenos sociológico ou psicológico como  motivo de preocupação social.
Entendia que a religião estava em derrocada social e lamentava  que a sociedade da época não oferecesse  nenhuma outra forma de transcender a individualidade.
Depois de imersão em vários estudos literários sobre pornografia, seus rituais e degradação, emergiu  com o conceito de arte que tem menos a ver com a beleza e mais com a consciência.
Como escritora, cineasta e ativista Susan Sontag dedicou grande espaço da sua vida profissional  às guerras e conflitos políticos, revelando seu interesse pelas questões relativas a ruína, destruição e morte.
Ao visitar o Vietnam, após um convite oficial, se depara com a cultura ocidental que lhe permite visualizar uma nova moral, e várias gradações de valores éticos, diferente dos experimentados na sociedade ocidental. Citava o contraste entre o sentimento de coletividade  vietnamita com o individualismo ocidental que permitia ao povo aceitar as exigências morais comunistas.
Apesar disto estava ciente das fraquezas locais e das atrocidades cometidas pelo modelo de governo.
Movida pelo interesse sobre guerras visitou a região de conflitos da Bósnia onde dirigiu a montagem de uma peça.
O sentido da moral que desenvolveu nestas experiências de vida está presente em grande parte da sua obra e aflora nos seus escritos sobre fotografia.
O livro da década de 70 versava mais sobre a estética fotográfica enquanto as obras posteriores foram dominadas pelas questões sobre moralidade de forma muito peculiar.
Em entrevista para Rolling Stone afirmou : " “Eu acho que devemos permitir não apenas estados de consciência e pessoas marginais mas também o incomum e o depravado. Sou a favor dos depravados.” (“I think we have to allow not only for marginal people and states of consciousness but also for the unusual or the deviant. I’m all for deviants.” (COTT, 2013, p. 31).
Sua compulsão pelas regiões de conflitos, o desassossego e atração por aventuras datava de longa data, tendo relatado em "Sobre Fotografia" o impacto causado pela visão de fotos documentando os horrores nos campos de concentração.nazistas.
Sua relação com a fotografia era ambígua. Revelava o apelo moral para reagir frente a situações por ela consideradas injustas Entretanto também refletia  o envolvimento passional  provocado pela relação amorosa com a fotógrafa Annie Leibovitz, e a possibilidade de conexão com o mundo concreto  e luxuoso durante momentos diversos da sua vida.
Um ano antes da sua morte publicou  Regarding The Pain of Others, também referente a fotografia , de conflitos, representações de guerra em abordagem histórica desde os desenho até os mecanismos mais modernos. Concluiu que a narrativa é mais eficaz que a fotografia , relato parcial dos acontecimentos.
Apesar de reconhecer que fotografia é evidência de algo que aconteceu discorreu sobre seu  incomodo com o fato deste registro ter se tornado um documento histórico manipulado nos bastidores políticos.
Nesta fase da vida via a fotografia como moeda política.
Também registrou novamente sua concepção de que fotografia  tem um caráter fragmentário. Entretanto afirmava  que se a fotografia pode levar a inúmero níveis de enganos também pode levar a novas descobertas: - “O que é liberador, assim nos dizem [as fotografias], é perceber cada vez mais” (SONTAG, 2008, p. 138.
 Sua relação com Anne Leibovitz, a famosa fotógrafa das celebridades estreitou os laços com o universo da fotografia.
Apoiada pessoal e financeiramente por Leibovitz pode se dedicar mais aos escritos.
A recíproca deste apoio se deu no incentivo para o livro Women, onde se nota claramente a influência de Sontag sobre Leibovtz. A coleção de fotos  representa mulheres nem sempre belas, embora permaneça o glamour tão apreciado pelo público consumista.
Fotografia foi para Suasn Sontag um instrumento para expressar ideias. Estas, que estavam atrás da superficialidade das imagens, eram seu foco de interesse, embora muitos dos seus livros não tivessem nenhum registro fotográfico.
Em "Sobre Fotografia " ela discorre sobre o sentimentalismo da arte, o limite do conhecimento fotográfico,  que mesmo despertando interesses e consciência não pode ser ético e político.


Sobre Fotografia - Resenha.

Na Caverna de Platão - Capítulo I

- "Colecionar fotos é colecionar o mundo"
- "As fotos são, de fato, experiência capturada, e a câmera é o braço ideal da consciência, em sua disposição aquisitiva. Fotografar é apropriar-se da coisa fotografada."
Sontag argumenta que literatura e artes plásticas são interpretativas enquanto fotografias não são impressões do mundo, mas pedaços dele que cada um pode ter. Fragmentos.
Entretanto aqui não menciona que o olhar por trás da lente é extremamente interpretativo e várias pessoas fotografando o mesmo campo de visão podem trazer resultados diferentes e inesperados. Neste caso o mesmo mundo aparece de várias formas. Interpretado.
- "Fotos fornecem um testemunho. Numa das versões da sua utilidade, o registro da câmera incrimina."
Estados Unidos Visto em Fotos, de um Ângulo Sombrio. Reconhecidos profissionais tentaram reproduzir em suas fotos  algo que existe, ou real.
Considera que a semelhança de outras artes fotografia também sucumbe ao gosto do público e consciência.
Usando um trabalho desenvolvido por vários fotógrafos sobre o mesmo tema concluiu que ao manipular as fotos, cortando e editando, o profissional faz da foto um meio que transita entre a objetividade e a interpretação. Assim diz que esta é a agressão da fotografia.
Ao comparar fotografia e pintura julga que a primeira é muito  mais agressiva que nas imagens pintadas.
- "Desde o seu início, a fotografia implicava a captura do maior número possível de temas. A pintura jamais teve um objetivo tão imperioso. A subsequente industrialização da tecnologia da câmera apenas cumpriu uma promessa inerente à fotografia, desde o seu início: democratizar todas as experiências ao traduzi-las em imagens"
Em relação as viagens afirma que fotos funcionam como provas de que a viagem houve e troféus de exibição.
Referindo-se às famílias, cujo padrão tradicional  julgava claustrofóbico,  as fotos serviriam para compensar ausências registrando um amplo contexto familia
- "Viajar se torna uma estratégia de acumular fotos"
Para Sontag, “um modo de atestar a experiência, tirar fotos é também uma forma de recusá-la – ao limitar a experiência em uma imagem um souvenir” 
Assim a foto é uma lembrança capaz de materializar um momento, mas se transformou numa doença crônica da modernidade. Hoje existe um vício em fotos. Um consumismo estético.
- "Tirar fotos estabeleceu uma relação voyeurística crônica com o mundo, que nivela osignificado de todos os acontecimentos.Uma foto não é apenas o resultado de um encontro entre um evento e um fotógrafo; tirarfotos é um evento em si mesmo, e dotado dos direitos mais categóricos — interferir, invadirou ignorar, não importa o que estiver acontecendo. Nosso próprio senso de situação articula-se, agora, pelas intervenções da câmera."
Quando relata que o fotógrafo faz opção entre interferir numa cena ou acontecimento e fotografar optando pela fotografia afirma que:
- "Fotografar é, em essência, um ato de não intervenção"
Outro tema abordado foi a banalização das atividades humanas através da perpetuação em fotos. Através do tempo ee da exibição elas perdem sua carga emocional . também que conceitos éticos não podem ser atribuídos através da fotografia.

Textos em construção...

Estados Unidos Visto em Fotos , de um Ângulo Sombrio - Capítulo 2.

Objetos de Melancolia - Capítulo 3.

O Heroísmo da Visão - Capítulo 4

Evangelhos Fotográficos - Capítulo 5

O Mundo Imagem - Capítulo 6

Breve Antologia das Citações - Capítulo 7

Citações

AD

- Desejei reter toda a beleza que surgia à minha frente, e por fim o desejo foi satisfeito.
Julia Margaret Cameron


Elisabeth Casagrande

- Nossa fotografia é um registro de nossa vida, para qualquer pessoa que veja, de fato. Podemos ver e ser afetados pelas maneiras de outras pessoas, podemos até usá-las para encontrar nossa própria maneira mas no final sempre teremos de nos libertar delas. É isso o que Nietzsche queria dizer quando declarou: “Acabei de ler Schopenhauer, agora tenho de me livrar dele”. Ele sabia como as maneiras dos outros podem ser insidiosas, sobretudo aquelas que têm a eficácia da experiência profunda, se deixarmos que elas se interponham entre nós e a nossa visão.
Paul Stran


AD

- Se eu pudesse contar a história em palavras, não precisaria carregar uma câmera.
Lewis Hine


Elisabeth Casagrande

- A maioria de minhas fotos é compassiva, bondosa e pessoal. Elas tendem a deixar o espectador ver por si mesmo. Tendem a não fazer pregações. E tendem a não fazer pose de arte.
Bruce Davidson


Elisabeth Casagrande

- Se eu fosse apenas curiosa, seria muito difícil dizer a alguém “quero ir à sua casa, estimular você a falar e ouvir você me contar a história de sua vida”. As pessoas me responderiam: “Você está maluca”. Além do mais,ficariam muito precavidas. Mas a câmera é uma espécie de licença. Muita gente quer que prestemos a elas muita atenção e esse é um tipo razoável de atenção para se prestar.
Diane Arbu

terça-feira, 5 de maio de 2020

Fotografia - Textos de Susan Sontag


Imagem da capa, *daguerreótipo da década de 1850 feito por fotógrafo anônimo.


“O que é humanidade? É um predicado que as coisas possuem, em comum, quando vistas como fotos” Susan Sontag, Sobre fotografia, p. 127

Fotografia Como Experiência

no início do livro, Sontag define a fotografia como “experiência capturada”, e a câmera como “o braço ideal da consciência em sua disposição aquisitiva” (nota 1, p. 14). Seguindo este pensamento, fotografar é experimentar, participar, e os desdobramentos dessa experiência são memorialísticos. Para Sontag, “um modo de atestar a experiência, tirar fotos é também uma forma de recusá-la – ao limitar a experiência em uma imagem um s0uvenir” (p. 20) (e o que é um souvenir senão um objeto que materializa uma memória?).

Fotografia e Viagem

Com o pensamento acima, Sontag introduz uma reflexão sobre a relação entre a fotografia e a viagem. Segundo tal reflexão, viajar se torna uma estratégia de acumular fotos, sendo a própria atividade de fotografar terapêutica, por tranquilizar e mitigar sentimentos de desorientação que podem advir durante uma viagem. Para Sontag, esse procedimento atrai especialmente pessoas submetidas a uma ética cruel de trabalho, o que ela exemplifica com povos como alemães, japoneses e americanos. Para essas pessoas, a culpa por não estar trabalhando seria atenuada pelo que chama de uma “imitação amigável do trabalho”: tirar fotos.

Estendendo a abordagem aos animais e ao novamente ao turismo, Sontag comenta o hábito do safári fotográfico, que estaria tomando lugar do safári na África Oriental, consolidando-se como hábito muito atual. Diante da câmera, “feras reais, sitiadas e raras demais para serem mortas”, deixam de ser criaturas das quais deveríamos nos proteger. A natureza, ameaçada, é que precisa de proteção contra as pessoas. Em substância: “Quando temos medo, atiramos, quando ficamos nostálgicos, tiramos fotos” (p. 20).

Sontag detém-se, em dado momento, à experiência da fotografia no caso específico da América do Norte, e remarca como a fotografia foi domesticada nesta parte do continente americano. A propósito, cita o caso da empresa Kodak, que implantou placas na entrada de muitas cidades com uma lista do que fotografar. Além disso, no caso dos parques nacionais, havia placas assinalando os locais “em que os visitantes deveriam empunhar suas câmeras” (p. 79-80).

Fotografia, História, Tempo e Memória

Para Sontag, a época atual é de nostalgia, algo que os fotógrafos fomentam, ativamente, a seu ver. A fotografia, afirma Sontag, é uma “arte elegíaca, uma arte crepuscular”, e aqui vale a transcrição direta de seu pensamento:

“A maioria dos temas fotografados tem, justamente em virtude de serem fotografados, um toque de páthos. [...] Todas as fotos são memento mori. Tirar uma foto é participar da mortalidade, da vulnerabilidade e da mutabilidade de outra pessoa (ou coisa). Justamente por cortar uma fatia desse momento e congelá-la, toda foto testemunha a dissolução implacável do tempo” (p. 26).

Essa reflexão se estende às cidades na memória fotográfica. Sontag cita o caso de Atget. Aqui cumpre lembrar que Walter Benjamim refletiu primorosamente sobre Atget.

Com o advento das técnicas de reprodutibilidade técnica da obra de arte, tais como a fotografia, aumenta consideravelmente a exposição da obra de arte. Nesse processo, o valor concedido à obra de arte muda, e novas funções colocam-se para ela, o que Benjamin explica como segue, ilustrando com o cinema.

“Com efeito, assim como na pré-história a preponderância absoluta do valor de culto conferido à obra levou-a a ser concebida em primeiro lugar como instrumento mágico, e só mais tarde como obra de arte, do mesmo modo a preponderância absoluta conferida hoje ao seu valor de exposição atribui-lhe funções inteiramente novas, entre as quais a ‘artística’, a única de que temos consciência, talvez se revele mais tarde como secundária. Uma coisa é certa: o cinema nos fornece a base mais útil para examinar essa questão”
(1).
No momento em que Benjamin teorizava sobre a reprodutibilidade técnica, os recursos técnicos de que se dispunha para veiculação da arte eram apenas o cinema e a fotografia. Esses meios abriram novas formas de perceber e de receber a arte. Sobre o papel do cinema nesse processo são significativas as palavras do filósofo alemão. Disse Benjamin: “Fazer do gigantesco aparelho técnico do nosso tempo o objeto das inervações humanas – é essa a tarefa histórica cuja realização dá ao cinema o seu verdadeiro sentido”(2).

Quanto ao papel da fotografia nesse processo, foi assim definido pelo filósofo alemão: “Com a fotografia, o valor de culto começa a recuar, em todas as frentes, diante do valor de exposição” (3). Benjamin relembra que o retrato fora o principal tema das fotografias, e afirma que o rosto humano foi a última trincheira do valor de culto. Na expressão fugaz dos rostos retratados nas antigas fotos, o filósofo alemão flagra o último aceno da aura. A seu ver, é quando o “homem” – esse foi o termo usado por Benjamin – se retira das fotos, que o valor de exposição vem a superar pela primeira vez o valor de culto. Para Benjamin, Eugene Atget (1857-1927) radicalizou esse processo com as suas fotografias de ruas vazias de Paris, feitas em 1900. A importância desse trabalho do fotógrafo francês foi assim aquilatada pelo filósofo alemão:

“Com Atget, as fotos se transformam em autos no processo da história. Nisso está sua significação política latente. Essas fotos orientam a recepção num sentido predeterminado. A contemplação livre não lhes é adequada. Elas inquietam o observador, que pressente que deve seguir um caminho definido para se aproximar delas. Ao mesmo tempo, as revistas ilustradas começam a mostrar-lhe indicadores de caminho – verdadeiros ou falsos, pouco importa. Nas revistas, as legendas explicativas se tornam pela primeira vez obrigatórias” (4).

A passagem acima, além de elucidativa da mudança do valor de culto para o de exposição, denota uma mudança de estatuto da fotografia, pela inserção de uma nova temática. Trata-se da entrada da cidade como tema principal da foto, o que concede ao espaço urbano uma nova visibilidade, agregando-lhe, por conseguinte, um valor de exposição. Esse valor aplica-se tanto a monumentos da cidade quanto aos seus mais simples recantos, valorados que passam a ser pela sua exposição em fotografia. Além disso, depreendemos nessas palavras a concessão por Benjamin de um valor de historicidade a essas fotos, por ele designadas como autos da história. Por fim, tal passagem demonstra ainda como essa mudança de temática torna-se instrumento de transformação na mídia impressa, forçando a entrada das legendas sob as fotografias.

Para Sontag, a Paris de Atget e Brassaï (5) desapareceu em sua maior parte, e as fotos dos arrabaldes agora devastados e das regiões rurais desfiguradas suprem o que ela chama de “nossa relação portátil com o passado” (nota i, p. 26). Em sua portabilidade, essas fotos, para a ensaísta, são comparáveis às fotos dos álbuns de família, que exorcizam, a seu ver, parte da angústia e do remorso pelo desaparecimento das pessoas.

Além disso, Sontag relaciona a dualidade de presença e ausência na fotografia ao seu potencial onírico, à maneira de Bachelard (6), comparando uma foto ao fogo da lareira, como sendo os dois estímulos para o sonho. Mais ainda, evoca o que chama de uso “talismânico” das fotos. É um uso que, a seu ver, exprime um sentimento implicitamente mágico: a tentativa de contatar ou pleitear outra realidade. Como exemplo desse uso, a autora evoca o caso da foto de um astro do rock pregado acima da cama de um adolescente.

Ainda do ponto de vista da memória, Sontag notabiliza a fotografia por ser cada foto um momento privilegiado convertido em um objeto diminuto que as pessoas podem preservar e olhar diversas vezes. Nesse aspecto, a fotografia se torna também um forte objeto de sensibilização. Dentro dessa ótica, a autora distingue a fotografia da televisão, que trabalha por um fluxo em que cada imagem cancela a precedente. Deixemos que as palavras de Sontag exemplifiquem essa distinção:

“Fotos como a que esteve na primeira página de muitos jornais do mundo em 1972 – uma criança sul-vietnamita nua, que acabara de ser atingida por napalm americano, correndo por uma estrada na direção da câmera, de braços abertos, gritando de dor – provavelmente contribuíram mais para aumentar o repúdio público contra a guerra do que cem horas de barbaridades exibidas pela televisão” (p. 28).

Fotografia e Realidade

Tanto quanto as pinturas e os desenhos, a fotos são uma interpretação do mundo, escreve Sontag. Mas, argumenta a autora, por meio de fotos, o mundo se torna uma série de partículas independentes, avulsas. A câmera, por sua vez, torna a realidade atômica, manipulável e opaca, e a foto confere a cada momento o caráter de mistério, reflete. Em suma: “A sabedoria suprema da imagem fotográfica é dizer: ‘Aí está a superfície. Agora, imagine – ou, antes, sinta, intua – o que está além, o que deve ser a realidade, se ela tem este aspecto’” (p. 33).

Adverte ainda que a fotografia não apenas reproduz o real, recicla-o, pois, na forma de fotos, coisas e fatos recebem novos usos, destinados a novos significados. É o real ficando parecido com a fotografia. Este o movimento do “primitivismo moderno”, para usar os termos de Sontag. Em substância, “a fotografia significa: anotar potencialmente tudo no mundo, de todos os ângulos possíveis” (p. 192). A propósito, prossegue Sontag, as câmeras definem a realidade de duas maneiras essenciais para o funcionamento do que chama de uma sociedade industrial avançada: como um espetáculo, para as massas; e como um objeto de vigilância, para os governantes. Mas ressalva que a força das imagens fotográficas advém de serem elas próprias realidades materiais por si mesmas.

Sobre Fotografia, Melancolia e Flânerie

Fortemente identificada com o voyeur, a fotografia recebe de Sontag uma abordagem ligada à flânerie. Para Sontag, as descobertas do personagem flâneur de Baudelaire são diversificadamente exemplificadas pelo que chama de “singelos instantâneos” tirados na década de 1890 por Paul Martin (7), nas ruas de Londres e no litoral; por Arnold Genthe (8) no bairro de Chinatown em San Francisco; pela Paris de Atget (já abordado nesta resenha); a Paris de Brassaï (também já citado nesta resenha); e pelas fotos urbanas de Weegee (9).

Fotografia, Valor e Beleza

Fotografar, sentencia Sontag, é atribuir importância, portanto, valorar, distinguir. O que, contudo, não significa que a fotografia magnifique os seus temas, e mais adiante, conclui:
“As câmeras implementam uma visão estética da realidade por serem um brinquedo mecânico que estende a todos a possibilidade de fazer julgamentos desinteressados sobre a importância, o interesse e a beleza. (‘Isso daria uma boa foto.’) As câmeras implementam a visão instrumental da realidade por reunir informações que nos habilitam a reagir de modo mais acurado e muito mais rápido a tudo o que estiver acontecendo” (nota i, p.193).

Retratos

O retrato é entendido por Sontag como uma forma fotográfica de posse e violação, na medida em que a fotografia as vê como as próprias pessoas nunca se veem. A fotografia, conforme este pensamento, tem das pessoas um conhecimento que elas próprias nunca podem ter, transformando-as em objetos “que podem ser simbolicamente possuídos” (p. 25).

Para Sontag, fotografar pessoas é uma forma de visitá-las. E, em tempos de selfies, cumpre destacar a questão do enquadramento, um requisito clássico dos retratos. Segundo Sontag, na retórica normal do retrato fotográfico, encarar a câmera significa solenidade, franqueza, desvelando a essência do tema. Por este motivo, assevera Sontag, a frontalidade parece correta no caso de fotos de cerimônias, como casamentos e formaturas.

Para o retrato de políticos, no entanto, é recomendável um olhar de viés, de três-quartos, em suma: “um olhar que plana em vez de confrontar, sugerindo ao espectador, em lugar da relação com o presente, uma relação mais abstrata e enobrecedora com o futuro”
(p. 50).

Ainda relativamente ao tema do retrato, é candente a abordagem de Sontag sobre a relação da fotografia com o narcisismo. Vale dizer que a autora lembra que a fotografia tornou-se fundamental nas sociedades prósperas, perdulárias e inquietas.

Sobre o estatuto da fotografia e a questão da autoria

Por princípio, Sontag considera a fotografia um ato de não-intervenção, o que ela explica como segue:

“Parte do horror de lances memoráveis do fotojornalismo contemporâneo [...] decorre da consciência de que se tornou aceitável, em situações em que o fotógrafo tem de escolher entre uma foto e uma vida, opta pela foto. A pessoa que interfere não pode registrar; a pessoa que registra não pode interferir” (p. 22).

Sobre o estatuto da fotografia, Sontag o identifica com um toque de Midas:

“A fotografia, conquanto não seja uma forma de arte em si mesma, tem a faculdade peculiar de transformar todos os seus temas em obras de arte. Mais importante do que a questão de ser ou não a fotografia uma arte é o fato de que ela anuncia (e cria) ambições novas para a arte” (p. 164).

Nesse contexto, a questão autoral na fotografia é um assunto que sempre prevalece. Para Sontag, faz sentido uma pintura ser assinada e uma foto não, pois a própria natureza da fotografia implica uma relação equívoca do fotógrafo como autor. A propósito, remarca Sontag, “quanto maior e mais variada a obra de um fotógrafo talentoso, mais ela parece adquirir uma autoria antes corporativa do que individual” (p. 150).

E o nosso Euclides da Cunha...

Por fim, vale destacar o capítulo “Breve antologia de citações [homenagem a W. B.]”, em que, entre várias citações, surge uma do nosso Euclides da Cunha. Sontag cita toda a passagem de Os Sertões (1902), sobre a comissão que descobrira o cadáver de Antônio Conselheiro. Transcrevo, abaixo, apenas o trecho final da passagem citada pela escritora americana.

“Desenterram-no cuidadosamente. Dádiva preciosa – único prêmio, únicos despojos opimos de tal guerra! – faziam-se mister os máximos resguardos para que não se desarticulasse ou deformasse [...]. Fotografaram-no depois. E lavrou-se uma ata rigorosa firmando a sua identidade: importava que o país se convencesse bem de que estava, afinal, extinto aquele terribilíssimo antagonista” (p. 211).

Resenha da autoria de: Eliane Lordello, arquiteta e urbanista (UFES,1991


*Antigo aparelho fotográfico inventado por Daguerre 1787-1851, físico e pintor francês, que fixava as imagens obtidas na câmara escura numa folha de prata sobre uma placa de cobre.Por metonímia: Imagem que se obtém com este aparelho.

sábado, 2 de maio de 2020

Fotografia - Tarefa I


Paleta de Alfred Andersen - Elisabeth Casagrande

Professor:  Marcelo Zequinão Almeida, jornalista e fotógrafo.

Primeiro exercício em 10 de março de 2020:  Sair pelos arredores e clicar umas 30 vezes com o celular, editar (selecionar) 10 imagens e trazer em pendrive, nuas e cruas.
Como o professor se declara um purista,  gosta das imagens tal qual se apresentam no ato de fotografar,  terei que rever meus conceitos, pois qualquer foto minha é antes de tudo "croped". Será meu desafio treinar o olhar para realizar o "crop" no momento do "clic".
Comecei distraída. O exercício estava confinado aos muros da faculdade, não ouvi, e saí pelo mundo...

Seleção "A" - as escolhidas




















Por acaso do destino minhas fotos foram as primeira analisadas, o que foi bom, pois apresentei sem a chance de refazer após visualizar algum colega. Porém não tenho certeza do resultado. O professor critica com gentileza, creio que para não assustar a calourada.

Como é útil ter um plano "B"  eis a segunda seleção: - As rejeitadas.





















O que marcou esta aula?

- Necessidade de olhar em profundidade, de considerar o entorno do que queremos focar, o que está atrás para evitar pequenas interferências que desalinhem a harmonia ou roubem o olhar do tema. O "croped" no final das contas pode se transformar num vício incômodo.
- Harmonia na paleta de cores.
- Composição : Considerar linhas, a geometria da composição.

Imagens de Elisabeth Casagrande ( BCas)